O BICO DA OBRA

Obras em casa, dum bico ao outro.

Vizinhos

É verdade, esqueci-me de contar:

No início de Setembro escrevi uma carta aos vizinhos e deixei uma cópia em cada caixa do correio. Apresentávamo-nos, avisávamos que iríamos fazer obras, manifestávamos intenção de reunir com o condomínio e deixávamos os nossos contactos. Umas semanas depois — quando já achávamos que ninguém gostava de nós — recebemos um telefonema do administrador do condomínio “o velhote de 88 anos que mora no 3º andar”, ficámos a saber. O senhor dizia que só conseguiria marcar uma reunião para o final de Outubro que o proprietário do segundo andar estava fora. Assim ficou combinado.

No entanto, marcado o início das obras, achámos que devíamos informar os vizinhos da data, pedir desculpa pelo incómodo e mostrar o nosso adorável sorriso. Foi assim que na quinta-feira passada, depois do trabalho, rumámos à casa nova. Espiámos a entrada, vazia, levámos a chave à porta, subimos um lance de escadas e especámos. Cabelo, decote, sorriso, “chega mais para a direita”, toca a campainha.

“Ai meus queridos estávamos ansiosos por vos conhecer”; casal de meia idade; filho solteiro em casa; filha casada há 7 anos deixa lá o neto durante a tarde; “nem imagina o que é que os do 3º fizeram no outro dia!”; arranjaram a casa há pouco tempo, chão, canalizações e cozinha; têm parabólica e ar-condicionado; “eu convidava-os a entrar mas o meu marido está a ver a bola”; não têm animais; moram há 30 anos no prédio; “nós não queremos maçar, a senhora deve ter de ir preparar o jantar”…

Meia hora depois, no patamar de cima, estão três bicicletas estacionadas. “Quem é? Ah são os vizinhos novos!!! Entrem por favor. Querido, vem cá que a Rita e o Miguel vieram apresentar-se (?!)”; muito boa música; mobília étnica; casal étnico; três filhos, um recém nascido; “E então, foi amor à primeira vista… a casa?”; obras recentes, traça original sem grandes invenções; estão a alugar; “O que é que fizeste ao braço? Na neve! A minha filha está desejosa de ir…” mudaram-se há 6 meses; o bebé chora muito; “nós não queremos incomodar, já está na hora do jantar”…

Para o dia seguinte ficaram os octogenários. “Peço desculpa pela desarrumação, não estávamos à espera de visitas”; o administrador vive com a irmã; compraram a casa aos padres; fui promovida a senhora; “antes vivia uma porteira no esconso da escada”; não têm filhos; o senhor é engenheiro; usam um cestinho para puxar as compras desde o rés-do-chão; o Miguel foi promovido a meu marido; “sabe que há um túnel da entrada até ao vosso quintal (?!)”; arranjaram a clarabóia a semana passada; conhecem o senhorio do 2º andar desde pequenino, é pessoa de bem; são pessoas de bem; “está na hora, não queremos atrasar o vosso jantar”, “nós já jantámos filha, afinal são sete e meia!”

:D

Rita

3 comentários»

  Miguel wrote @

Eu fui promovido a marido, mas olha que tu foste promovida a esposa!!!
Quem ganha?! quem é!?

  Miguel wrote @

Esqueceste de dizer que os octogenários dizem que não se incomodam com a criancinha a chorar mas que os do segundo ouvem uma musica muito esquezita… “assim pum pum pum, só se ouve isto pum pum pum”
Heheheh

  Marta wrote @

Amei a parte dos “jantares” “senhora” “marido”, HEHEHEHE e sobretudo da vossa coragem de irem “bater nas campainhas” para se apresentarem, LINDO! adorava ser mosca


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