Eu sabia que devíamos ter oferecido um bolinho caseiro aos vizinhos!
Ontem recebemos um telefonema a pedir para passarmos pelo primeiro andar ao final do dia. Nervosos, tocámos à porta do casal de avós. A mulher, de porta aberta, convidou-nos a entrar. O homem, surdo, esperava na sala, fazia o telejornal ouvir-se no hall da entrada e sentava-se a meio metro da televisão. Ali sentámos, também a meio metro do aparelho, nos restantes lugares do sofá. Descrever a conversa que se seguiu é tão complicado como foi tê-la. Por entre repetições de frases curtas, moderadamente berradas e acompanhadas com toda a linguagem corporal disponível tentámos sossegar o patriarca que num monólogo inabalável vociferava contra o rapaz das obras “aquele de cor” que o tinha ofendido. Nós desenhámos uma teatral expressão de indignação enquanto acompanhávamos a história e desvendávamos o episódio em que o velho foi à janela acusar os trabalhadores de lhe partirem o chão e que, por surdez e racismo, não ouviu a resposta. O Max — soubemos depois pela sua versão — tentou explicar que estavam a trabalhar no tecto da casa e que o barulho era muito mas era susto e não dano, em trinta minutos estariam despachados. A mulher não sossegou com a nossa segurança em que o Sr. Engenheiro por lá andava e supervisionava os trabalhos, quis-nos mostrar os azulejos que o marido por toda a casa assentou, com cola, no soalho de madeira e garantir que pagaríamos o arranjo daqueles que saltassem. Nós aquiescemos e despedimo-nos, com uma pungente dor de cabeça mas secretamente satisfeitos pela descoberta do mau gosto alheio que nos isolou duplamente da televisão do surdo.
Rita